domingo, 8 de junho de 2008

O FENÔMENO DE NOLLYWOOD

Com abundantes reservas de petróleo, a Nigéria é um dos países que economicamente mais crescem no mundo, a uma taxa de aproximadamente 9% ao ano. A nação mais populosa da África contabiliza 140 milhões de almas se espremendo em um território um pouco maior que o Mato Grosso. Apesar de não possuir salas de cinema, a Nigéria possui grande mercado interno e é o terceiro maior produtor de filmes do mundo.

A fórmula dos filmes nigerianos (popup1) passa pelos baixíssimos custos de produção e distribuição. Por um lado, são amadores: realizados com câmeras domésticas, em locações improvisadas e com atores sem formação. Por outro, enquanto sucesso comercial que alimenta uma indústria da qual muitas pessoas tiram o sustento, são profissionais. Finalizados, os DVDs são copiados e repassados aos camelôs, que, nas ruas, os vendem para os consumidores finais. Na Internet, o site Izogn Movies comercializa filmes de Nollywood e divulga trailers em uma página hospedada no Youtube.

Embora alguns filmes tratem de mazelas sociais, prostituição e crime, a maioria aborda bruxaria ou possessão espiritual e, com poucas variações, termina em conversão ao Cristianismo ou a desgraça do bruxo. O fato é que satisfazem plenamente o público alvo, a quem pouco importa a qualidade técnica, a nitidez do áudio, a astúcia do roteiro ou o profissionalismo dos atores.

O pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), Bruno Magrani, explica o segredo do cinema nigeriano:

- Cada produção custa entre US$ 15 mil e 100 mil, e os filmes são vendidos nos camelôs a US$ 3. Um filme vende algo entre 20 e 50 mil cópias. As cópias legais possuem um preço tão baixo que conseguiram suprimir a pirataria na Nigéria, mostrando que ela é um problema de mercado.

Segundo o último Atlas du Cinéma, publicado pela revista francesa Cahiers du Cinéma, no ano de 2004 os nigerianos (com um total de 1200 filmes) ascenderam ao primeiro lugar em quantidade de produções, superando a indiana Bollywood (934 filmes) e a estadunidense Hollywood (631 filmes).

O sucesso de Nollywood (popup 2) já começa a transbordar para os países vizinhos, onde tem encontrado grande apelo junto ao público. Algumas produções têm ainda um alcance que extrapola a África, como o cômico “Osuofia in London”, que faturou US$ 9 milhões nos Estados Unidos. Um website publica notícias e divulga lançamentos do cinema nigeriano.

O cinema popular é um fenômeno que garante à Nigéria uma fonte crescente de empregos e até mesmo certa soberania cultural, e possui paralelo no Brasil (popup 3), que parece ignorar a possibilidade de apropriação de novas tecnologias para fazer cinema independente (sem necessariamente descer a qualidade técnica ao nível nigeriano, afinal, quem não se lembra de “A Bruxa de Blair”(1999)?) e continuam a debater e reivindicar a participação governamental na cultura.

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Há 16 anos, em 1992, os nigerianos Okechukwu Ogunjiofor e Kenneth Nnebue decidiram juntar os seus esforços e realizar uma produção cinematográfica de baixo orçamento: Living in Bondage (literalmente “Vivendo amarrado”, mas que, no filme, tem uma conotação de “Vivendo possuído” ou “Vivendo com um encosto”) é baseado na história de um homem que enriquece às custas de um pacto com o demônio. O filme, cujo roteiro foi escrito por Ogunjiofor e contou com a atuação de seus amigos, foi um grande sucesso e, hoje, é considerado o marco inicial da Nollywood – a fértil indústria cinematográfica nigeriana.

Em uma entrevista ao site de notícias de ganense All About Gana, Okechukwu admitiu que, em 1992, não calculou a dimensão que tomaria o movimento que inaugurava:

- Eu não sabia que o mundo inteiro abraçaria o meu filme da forma que fez. Eu era apenas um jovem rapaz na época e não achava que estava criando uma alternativa aos filmes convencionais. Tudo o que eu sabia é que não poderia contar a minha história com celulóide porque não tinha dinheiro o suficiente.

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Apesar do crescimento da indústria, ainda não é possível fazer fortuna a partir dela, segundo a atriz Steph-Nora Falana declarou em entrevista a um jornal nigeriano:

- Comparando com o padrão de vida na Nigéria, o funcionário público média não ganha tanto quanto nós. O único setor em que se recebe como no Cinema é a indústria do petróleo. Pagam-nos bem, mas quando você olha para o meio artístico mundo afora, o dinheiro não é tanto assim.


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Aqui, a produção continua largamente dependente de subsídios do governo e responde por apenas cerca de 1/6 dos filmes que entram em cartaz e 1/7 dos lucros provenientes das bilheteiras.

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